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Pinturas Cegas, de Tomie Ohtake

“Pinturas Cegas” tem início no dia 19 de novembro, dois dias antes de Tomie Ohtake completar seu centenário. A exposição apresenta 24 obras realizadas pela artista com os olhos vendados, entre os anos de 1959 e 1962.  A luz na obra de Tomie Ohtake trafegou entre o excesso e a tenuidade, entre a construtividade da cor pela sombra e a privação do olhar como risco operacional que aproximava escuridão e cegueira do processo de produção do olhar. A artista traça o caminho da luz por extremos. Entre a exaustiva presença e a absoluta falta dela, em um mundo de entrelaces de sombras, cegueira, luminosidade plena e vibração da cor que revelam o aparato conceitual que enlaça sua trajetória, na qual se destaca o conjunto dessas pinturas.

No início da década de 1960, Tomie Ohtake vedava os olhos para pintar como se buscasse ajustar seu olhar ao ponto cego e a partir dele se engajar na experiência ímpar. As “pinturas cegas” de Tomie formam uma corrente única na história da arte brasileira uma vez que a modalidade de pintar com os olhos cobertos por uma venda não é comum ou corriqueira no panorama da arte no Brasil.

Tomie Ohtake, as pinturas cegas
Paulo Herkenhoff, curador

Há uma região no campo visual do disco ótico na qual a visão entra em colapso. Este é o ponto cego – punctum cecum – também chamado de escotoma fisiológico. Nos anos 1960, Tomie Ohtake confrontou sua pintura com questões óticas e oftalmológicas para explorar o estatuto do saber pictórico ao vendar os olhos para pintar: ajustar seu olhar ao ponto cego e a partir dele se engajar na experiência pictórica. A essas obras denominamos, conforme o testemunho da artista, de “pinturas cegas”, feitas sob um estado de não-ver. O crítico Mário Pedrosa e artistas como Willys de Castro e Mira Schendel interessaram-se por essa experiência. As pinturas cegas formam um corpus estimado em pouco mais de trinta obras, uma singularidade na história da arte brasileira.

No final da década de 1950, Pedrosa retornou do Japão depois de uma pesquisa sobre a história da arte daquele país, com bolsa da Unesco, para estabelecer um diálogo com a produção ocidental. Passou a reivindicar que os artistas brasileiros dessem atenção à cultura japonesa: a caligrafia, a pintura sumi, a arquitetura, o espírito zen, entre outros aspectos. A aproximação de Ohtake, no entanto, evita a relação formal entre pincelada e escritura ideogramática. Ela estabelece relações entre valores e procedimentos zen e o signo pictórico em seu processo de constituição de linguagem. Por sugestão de Pedrosa, Ohtake leu então o filósofo Merleau-Ponty, a cuja fenomenologia a arte brasileira muito deve. As vendas nos olhos durante o processo da pintura tinham o sentido de realizar uma ação pictórica no limite da percepção. O pincel não buscava demarcar território ou produzir qualquer figuração. Tratava-se do puro fenômeno da passagem do tempo no processo zen através do ato de pintar. O paradoxo das pinturas cegas é a poética da produção de linguagem e de conhecimento que se apresenta como experiência do não ver, do não saber e da intuição.

  • Foto: Leo Neves.

  • Foto: Leo Neves.

  • Foto: Leo Neves.

  • Foto: Leo Neves.

  • Foto: Leo Neves.

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