Programação

Como viver no capitalismo sem dinheiro?

 

Conheça o BANCO DOS IRREAIS

A ordem econômica mundial se parece cada vez mais com uma história de ficção científica em que máquinas se sobrepõem à humanidade e dominam o mundo para submeter os sujeitos e a natureza à lógica absurda de sua autorreprodução. Enquanto as crises financeiras demonstram a falta de controle e o grande custo social que implica geri-las, a economia se estabelece como realidade unívoca e lei inelutável, que valoriza tudo como representação homogênea do tempo de vida a partir de suas quantidades e não das incontáveis qualidades de sua experiência. O dinheiro não é o meio de troca entre as pessoas, ao contrário, mediatiza as pessoas com o objetivo final de produção de riqueza simbólica financeira e sua acumulação centralizada.

A megaindustrialização, o crescimento descontrolado da produção com o fim de obter mais ganhos monetários, concebe o consumidor como uma multidão massificada que é apenas a extensão passiva da cadeia de produção. Não se produz para o consumidor, se consome para aumentar a produção e o lucro. O PIB (Produto Interno Bruto), que mede o suposto progresso dos países, valoriza tudo o que gera riqueza monetária. Assim, por exemplo, são positivas tanto a contaminação como sua limpeza, ou tanto as epidemias como a produção de medicamentos, desde que as empresas tenham lucros. A economia só entende a língua do dinheiro. Logo, não considera riqueza o trabalho solidário entre vizinhos, aquele que as mulheres realizam em seus lares sem ganhar salário ou a perda irreparável de recursos naturais. A máquina de fazer dinheiro não contempla o bem comum. Em sua lógica pode, até mesmo, jogar alimentos fora para subir os preços e especular com a fome. A ordem econômica mundial demonstra sua indiferença em atender às necessidades de consumo da população quando 1,3 milhão de pessoas (20% dos habitantes do planeta) padecem de fome ao passo que, a cada ano, são desperdiçados 1,3 milhão de toneladas de alimento.  Ou seja, com uma administração correta, cada pessoa famélica poderia obter diariamente 2,74 quilos de alimento. O dinheiro e o mercado se estabelecem como mediadores entre produção e consumo, separando ambos processos e alienando tanto o trabalhador como o consumidor.

Dois terços da riqueza do mundo são gerados simbolicamente pela especulação financeira e pelos meios de comunicação de massa. A economia é um espetáculo no qual a economia real, a produção de bens e serviços, só participa de um terço dos lucros. Nós, as pessoas, somos aqueles que dão crédito aos banqueiros. A economia capitalista é uma religião que cultua o dinheiro.

Há alguns dias, quando visitava Porto Alegre, observei um cartaz na rua que dizia: “Parece mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Este projeto convida as pessoas, os consumidores e os cidadãos a responder à pergunta: Como viver no capitalismo sem dinheiro? Podemos conceber uma vida além do império da economia financeira? Que outras organizações de formas de produção, de consumo e de troca podemos considerar atualmente como possíveis e desejáveis? Se trata de dar visibilidade e ativar a comunicação de redes sociais com propostas de troca e reunião de saberes e experiências específicas que abram alternativas para viver à margem do capital.

Para dar crédito a nossas próprias ações, estamos organizando um Banco de Tempo, com a implementação de uma moeda (UM IR-REAL), em que cada unidade representa um período de tempo, uma vivência significativa compartilhada que ocorre em um instante, em alguns minutos ou em algumas horas de trabalho-experiência, que nossos “correntistas” doam e recebem ao mesmo tempo. Para abrir sua conta neste banco, você assina um contrato em que se compromete a dar momentos significativos de seu tempo e recebe em troca o mesmo número de moedas, de Irreais, que você trocará pelo que é oferecido pelos demais investidores do banco.

É uma economia do dar, mais que acumular. Trata-se de compartilhar a experiência, pois a informação economiza o tempo. Buscamos a reunião e a partilha dos saberes, propondo-nos, assim, a realizar uma plataforma virtual em que se integrem os projetos que facilitam a vida sem dinheiro e que possibilite a criação de um livro colaborativo com a reunião de conhecimentos específicos que contribuam para viver melhor sem dinheiro. Você conhece práticas de alimentação, saúde, habitação, mobilidade, educação, arte e cultura em que o dinheiro não seja parte fundamental de sua realização e uso? Você sabe fazer algo ou conhece alguém que saiba? Compartilhe! Participe. Vamos dar uma resposta juntos.

José Miguel Casanova

José Miguel González Casanova (Cidade do México, 1964) é artista e mestre em artes visuais pela Universidade Autônoma do México (UNAM), onde atua como professor desde 1988. Em 1993 foi um dos fundadores do espaço independente Temístocles 44 e, desde então, vem desenvolvendo projetos sociais de arte, entre os quais se destacam o Banco Intersubjetivo de Desejos (1998-2009)  El jardín de Academus, Laboratorios de arte y educación (2010) e Tianguis de CACAO (Cooperativa Autónoma de Comercio Artístico de Obras) (2013-2015). Sua obra tem sido apresentada em inúmeras exposições coletivas e individuais em todo o mundo, e integra coleções públicas da América Latina e da Europa. Desde 2002 Casanova é diretor-fundador do Seminário de Meios Múltiplos, na UNAM, em que atua como editor de pesquisas interdisciplinares nos diversos contextos sociais de seus alunos, com o quinto volume a ser publicado pela coleção Medios Múltiples. Entre suas publicações estão Gramática del dibujo en 100 lecciones (2009), Agenda oculta (2009) e Visionario (2013). 

  • Foto: Thales Leite.

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