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Aline Motta:

memória, viagem e água

Debruçando-se sobre vestígios documentais de sua própria família, Aline Motta se dedica a mapear narrativas ancestrais que permeiam as relações entre África e Brasil, no passado e no presente.

Nesta exposição inédita no Rio de Janeiro, que o Museu de Arte do Rio e o Instituto Odeon têm a honra de apresentar, a artista niteroiense parte de relatos e documentos originais para produzir leituras de episódios apagados pela história, entre a ficção e a realidade.

Os três trabalhos – “Pontes sobre abismos” (2017), “Se o mar tivesse varandas” (2017) e “Outros fundamentos” (2019) – irão ocupar uma galeria do 1º andar do pavilhão de exposições.

A água pode destruir documentos históricos em papel, mas mesmo molhados muitos deles podem voltar à vida: são tecnicamente enxugados e continuam desempenhando suas funções. No fundo do mar, perdido entre os restos do Titanic, foi encontrado um caderno que pertenceu ao jovem Edgardo Samuel Andrew (1895-1912), com suas anotações legíveis feitas a lápis, ainda que com alguns pequenos danos. O mesmo não ocorre com o fogo que, uma vez desperto, se espalha destruindo o que toca e de seu trajeto sobram cinzas. Foi isso que aconteceu com grande parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, fechando muitos caminhos para o passado.

Os arquivos e museus que guardam memórias materiais devem ao máximo evitar o contato com agentes de deterioração, dos quais umidade e fogo são apenas dois dos exemplos, já que eles estão prontos para o ataque. Mas enquanto existem, quais os usos podemos fazer destas memórias que guardamos? Memória, esquecimento, escavação paciente e descoberta estão entre os assuntos que aparecem na obra de Aline Motta, artista fluminense, 45 anos, que mora e trabalha em São Paulo.

Três anos após realizar a instalação e o livro de artista Escravos de Jó, (2016), a artista segue interessada nas histórias ligadas à escravidão negra, e de como sua família, de um lado portuguesa, de outro, africana e afro-brasileira, é atravessada por essas relações desiguais que definem as particularidades da sociedade brasileira. 

Agindo como uma catadora de farrapos orais, visuais e escritos das histórias encobertas de sua família, Aline Motta faz uma incursão a lugares distantes entre si, aproximados, entretanto, pelo oceano atlântico, alinhando-os em uma obra repleta de água – salgada, doce, transparente ou poluída. Essa substância aparece como um elemento estrutural na trilogia de vídeo-instalações – Pontes sobre abismos (2017), Se o mar tivesse varandas (2017) e Outros fundamentos (2019). Seu fio condutor é um pequeno acervo de retratos fotográficos familiares. São pessoas com quem teve ou tem alguma proximidade física, sobre quem ouviu falar ou sobre quem existem papéis que hoje pertencem aos arquivos públicos e circulam pela internet. 

As/os retratadas/os, nesses vídeos, retornam como substitutos dos antigos viventes para a acompanharem em viagens por localidades como Vassouras no Rio de Janeiro, Cachoeira na Bahia, Serra Leoa na costa africana, Lagos/Nigéria, e áreas rurais na fronteira entre Portugal e Espanha. A busca de sua genealogia e raízes familiares tem um marco importante – Doralice, bebê de cor parda que nasceu em 1911 no Rio de Janeiro, e que, um dia, viria a ser sua avó materna. Avançando para o passado, sem se perder nele, Aline Motta encontra outros nomes de pessoas, como sua bisavó, Mariana (1888-1960), nomes de ruas, produtos do comércio, notícias da imprensa e eventos históricos que se atravessam. Tais descobertas sinalizam o modo que a artista encontrou para lidar com os fatos étnico-raciais em sua família, ou seja, o gosto por saber do passado, com vistas a melhor entender seus efeitos no presente. Essa vontade de saber a engaja em viagens nas quais conhece pessoas e localidades, matéria prima da trilogia em que, como se poderá ver, emerge um efeito de vaivém entre lugares. 

Alguém em Serra Leoa banha os retratos impressos em tecidos brancos na água, uma jangada carrega os rostos de um casal. Noutro momento o retrato em tecido de Wilma (1939-2011), mãe da artista, é segurado por outrem em Lagos/Nigéria dentro de uma pequena embarcação; noutras vezes essas imagens moles, posto serem os tecidos muito delicados, são penduradas em varais; o vento as movimenta sob as ruínas do que outrora fora um lugar habitado. Uma vez ampliados em relação aos originais, esses retratos ganham uma vida nova, saem das gavetas, álbuns ou caixas de sapato, lugares nos quais vivem silenciosamente recolhidos à espera de quem, com curiosidade e rigor, lhes interpele sobre quem e de onde eram, e o que legaram a nós, os vivos. 

Texto crítico de
Alexandre Araújo Bispo

Texto de Marcelo Campos,
curador-chefe do MAR

A que diáspora pertencemos? Esta é a pergunta que parece reincidir em formas, intervalos, mares, horizontes, histórias incompletas nos filmes de Aline Motta. Os fatos coletados em pesquisa parecem antecipar os finais, dada a raridade das fontes, mas a artista faz do epílogo os primeiros capítulos de projetos de longa duração, ainda que documentos, papeis, certidões de batismo e nascimento mostrem-se rarefeitos, desfazendo-se em água, amarelecidos pelo tempo, tornando transparentes as histórias de vidas paralelas que o colonialismo insistiu em apagar.

A obra de Aline Motta adensa-se em cores, contrastes, sombras, buscando altas definições que não estão nas imagens, mas, antes, nas histórias para além da fotografia. Invocam-se as vozes, os corpos, os nomes e sobrenomes, ampliando os sentidos de muitas histórias de vida. A fotografia se reordena entre achados e perdidos; muitas vezes nos confundimos entre documentos de gaveta e o presente fotográfico coletado diretamente. Com isso, pontes são construídas a todo instante, entre Brasil e África, Rio de Janeiro, Bahia e Lagos, entre a artista e suas avós, seus parentes no Orun. “Se o mar tivesse varandas”, afirma a artista, “da praia daqui e da praia de lá, teríamos a mesma vista.” Os fatos porosos, as pontes desfeitas resultam das diásporas. A quem foi negada a reparação histórica que relega os testamentos da invenção do Brasil às camadas mais desiguais de subalternidade? Este é o espólio resultante da invasão portuguesa.

Na busca por histórias, Aline Motta encontra e projeta o passado, os cânticos africanos, as feições dos rostos, sempre aproximadas da câmera, as alegorias dos sorrisos, os tecidos, a pletora de cores, os brilhos fugidios de uma fita de cetim, o som de uma feira livre. Em muitos momentos, as conclusões são antecipadas pela própria vivência ancestral de autoria desconhecida, relatos, cânticos, práticas, costumes mostram-se devoluções do passado. O jongo, o samba, os cantos ancestrais tratam, nos versos, de responder ao que ficou no abismo, se não há varandas, as vidas vividas reelaboram o tortuoso, ou melhor “espinhoso”, destino sem flores. Mas a vitória inventa canções, protestos, reuniões, novos arranjos familiares. E Aline Motta continua a contar muito mais, em busca de parentescos. Será que somos parentes?

“O que pode o vento molhar, a chuva molhar, a água dos rios molhar? O que pode o tempo apagar, a violência manchar?” As perguntas precisam permanecer. Não ter a história completa é o monumento a ser sublinhado para que possamos preencher as lacunas com a consciência, encontrar “no futuro, o passado” e a isso tomar a bênção, pois se o vento, o fogo e a água promovem o desaparecimento, na história dos negros e das negras no Brasil, são elementos usados constantemente nos ritos de cura e iniciação. Os nomes dos ancestrais são soprados para fora das portas. Enquanto isso, alguém nos chama e percebemos que podemos entrar, precisamos entrar e dizer: “Erô, Mojé, sou eu”. E tudo recomeça, pois o compromisso se alimenta pela chama de uma pergunta que precisa estar acesa: “Por que demorou tanto?”.