Entre a aridez da vida cotidiana e a potência da celebração popular, a Zona Oeste do Rio de Janeiro é o território a partir do qual o artista Tainan Cabral constrói sua mais recente exposição. Com obras inéditas, o Museu de Arte do Rio apresenta “Armadilhas no Paraíso”, primeira mostra individual institucional do artista Tainan Cabral no MAR. A exposição inaugura no dia 15 de setembro, às 16h, com entrada gratuita e conta com a curadoria de Marcelo Campos, Amanda Bonan, Jean Carlos Azuos, Amanda Rezende e Thayná Trindade.
“Armadilhas no Paraíso” reúne mais de 150 itens, entre pinturas, esculturas e instalações construídas a partir de materiais, cores e símbolos do cotidiano do artista, que cresceu no bairro de Senador Camará, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Com uma produção marcada pela investigação das relações entre paisagem, memória e construção de imaginários, Tainan Cabral desenvolve uma relação única para o público que visitar o MAR. O artista mergulha em suas próprias experiências de bairro e observações cotidianas.“Tem uma dimensão muito da infância no subúrbio, que é marcada por estar muito mais na rua do que dentro de casa, as barricadas vem da ideia de que você pode ter aquilo como uma escultura ou uma interação pública ,eu acho que vem também da própria experiência do grafite. A gente vê uma geração de artistas que saiu do grafite e veio para suportes, digamos, mais tradicionais, como a pintura”, destaca Marcelo Campos, curador-chefe do MAR.
A exposição surge justamente da energia antagônica do título “Armadilhas no paraíso” que atravessa esse território onde o artista cresceu e foi criado: de um lado, barricadas, manilhas, a aspereza cotidiana; de outro, os bailes funk, as feiras de rua, as relações com a liberdade e a própria natureza do lugar. “ Nesse sentido urbanístico, há uma mistura de ruralidade e asfalto, há ruas que terminam em pedras, o árido sertão permanece como o imaginário para o Tainan. Quando ele fala de zona oeste, ele usa uma literatura que acompanha o trabalho dele, o livro de Armando Magalhães Corrêa que há 100 anos já falava exatamente do sertão carioca. É importante situar que a Zona Oeste está perto dos morros e das montanhas, nessa nova configuração de sudoeste. Porque essa relação, desse processo da natureza, ele fala do sertão carioca, de deus e o diabo no sertão carioca e que é exatamente essa dimensão do paraíso e da armadilha”, destaca o curador Jean Carlos Azuos .
Com uma trajetória que ultrapassa uma década, a pesquisa do artista parte da observação atenta dos objetos do cotidiano. Materiais e elementos são retirados de seus contextos originais e transformados em signos que carregam a memória e a experiência de um território. Lonas, manilhas, pneus, produtos de limpeza, gramados sintéticos, entre outros itens, são incorporados à poética multicolorida de Tainan e seus códigos visuais e suas formas de invenção ganham ressignificados. Um dos elementos fundamentais desse vocabulário é a cor, ele cria uma paisagem cromática própria. Surgem tanto cores pastéis quanto cores vibrantes, degrades, associadas aos estímulos visuais das comunidades, como as malhas dos bailes e os desinfetantes coloridos vendidos em garrafas PET pelas calçadas. “Aqui a potência cromática tem um diálogo que o próprio trabalho gera com tradições da arte contemporânea na história da arte, há por um lado a geometria, por outro lado a abstração, então são assuntos que se ligam à produção de Tainan. Mas quando você olha para as telas você também percebe a presença do videogame, dos jogos, porque a gente vê o degradê e o ecrã”, enfatiza Marcelo Campos.
Ao reunir memória pessoal, crítica social, cultura popular e experimentação material, Tainan Cabral constrói uma exposição que funcionará como um grande olhar ao território. Suas obras não procuram apenas representar a Zona Oeste, mas fazer com que sua presença física, cromática, sonora e simbólica atravesse o espaço expositivo. A mostra ficará em cartaz até dia 28 de fevereiro no MAR.
MINIBIO
Tainan Cabral
Rio de Janeiro, 1990
Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ
Nascido em Senador Camará, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro onde vive e trabalha, Tainan Cabral iniciou sua prática artística com o desenho e o grafite, que logo evoluíram para pinturas abstratas. Extraindo seus temas e sua paleta de formas orgânicas e objetos cotidianos que povoam as ruas da periferia, ele cria paisagens de um realismo alucinógeno que dialogam com a história do neoconcretismo e do tropicalismo. Por meio de formas geométricas e biomórficas, gradientes de cor e fluorescência, o artista busca conduzir o espectador a um estado de transcendência visual, conceito que tem sido chamado de “Misticismo Tropical”.
Parceria: GALERIA CAVALO
Cavalo é uma galeria carioca de arte contemporânea situada no bairro de Botafogo. Inaugurada em janeiro de 2016 pelos sócios Ana Elisa Cohen e Felipe R Pena. A galeria apresenta uma programação de exposições, tanto de artistas representados como de artistas convidados.
Para celebrar o aniversário de 10 anos, a galeria planejou um calendário especial de exposições, encontros, debates e conversas, mantendo o compromisso com a cena cultural local, assim como uma discussão de arte a nível global.
Artistas representados: Ana Clara Tito, Ana Miguel, Douglas de Souza, Eustáquio Neves, Josely Carvalho, Marina Weffort, Mauro Giaconni, Pedro Caetano, Poli Pieratti, Sofia Caesar, Tainan Cabral, Thora Dolven Balke e Vijai Patchineelam.