A exposição Beleza valente, individual de Zanele Muholi no Brasil, apresentada pelo Instituto Moreira Salles em São Paulo, inicia a sua itinerância a partir do dia 12 de junho, no Museu de Arte do Rio. Depois de passar pela sede do IMS Paulista a mostra chega ao Rio de Janeiro com um panorama da produção de Muholi, cuja obra funde arte e ativismo em prol de sua comunidade. Com curadoria de Daniele Queiroz, Thyago Nogueira e Ana Paula Vitorio, a exposição reúne mais de 100 obras que traçam um panorama da carreira de Muholi — artista visual e ativista cuja obra documenta e celebra a comunidade negra LGBTQIAPN+ na África do Sul e no mundo. “Eu uso a fotografia para confrontar e curar, por isso me denomino ativista visual”. Desta forma, Zanele Muholi (1972, Umlazi, África do Sul) descreve sua trajetória, em que arte e política são inseparáveis.
Muholi estará presente na programação do dia de abertura (12/6) onde acontecerá o Seminário da Cultura LGBTQI+ nas Artes Visuais a partir das 14h com entrada gratuita e que abordará questões relacionadas à comunidade LGBTQIAPN+. A exposição reúne mais de 100 obras, produzidas ao longo de sua carreira, de 2002 até hoje. O conjunto inclui fotografias e vídeos. São apresentadas suas principais séries, como Faces e fases (Faces and Phases), Somnyama Ngonyama e Bravas belezas (Brave Beauties). A mostra traz também obras inéditas feitas no Brasil em 2024, quando Muholi esteve em São Paulo para participar do Festival ZUM, organizado pela revista de fotografia do IMS, e conheceu organizações e instituições LGBTQIAPN+, num diálogo entre a história da luta por direitos no seu país e no contexto brasileiro.
Muholi nasceu em 1972, em Umlazi, Durban, durante o regime do apartheid na África do Sul. O fim do apartheid e a nova Constituição, implementada por Nelson Mandela em 1996 – que proibiu a discriminação racial, sexual e de gênero –, não foram suficientes para deter o racismo, o preconceito e os crimes de ódio. A fim de lutar contra essa realidade, Muholi estudou fotografia e passou a fazer reportagens que expunham episódios de violência. Em 2004, seu trabalho ganhou atenção nacional. Com o passar do tempo, trocou as fotografias de denúncia por retratos e autorretratos, criando um vasto arquivo de imagens que confrontam e subvertem os olhares e narrativas coloniais.
O título da retrospectiva, Beleza valente, evidencia que, na obra de Muholi, a beleza é uma forma de luta e afirmação em oposição à violência contra pessoas negras LGBTQIAPN+. Também sobre essa característica central do trabalho, a curadoria comenta: “Identificada como uma pessoa de gênero não binário, Muholi constrói fotografias que desmontam os padrões de masculino e feminino em busca de liberdade e fluidez. Seu trabalho valoriza a beleza comum, cotidiana e comunitária, transformada em experiência extraordinária. Sua luta por justiça e dignidade engrandece todas as pessoas”.
Somnyama Ngonyama é uma das séries mais emblemáticas de Muholi. Iniciada em 2012, a obra permanece em constante desenvolvimento. Por meio de autorretratos realizados em diferentes cidades ao redor do mundo, a artista se representa utilizando objetos cotidianos — como cobertores, almofadas e cinzeiros — que evocam aspectos sociais e políticos ligados à história da África do Sul e aos lugares por onde transita.Na língua zulu, idioma materno de Muholi, “Ngonyama” significa “leão” ou “leoa”. O termo também faz referência ao clã de sua mãe, Bester, que trabalhou durante toda a vida como empregada doméstica para famílias brancas sul-africanas. Ao intitular a série dessa forma, Muholi presta homenagem tanto à mãe quanto às suas origens ancestrais.
Outras séries amplamente reconhecidas, como Bravas belezas (Brave Beauties) e Faces e fases (Faces and Fases), também incorporam imagens realizadas no Brasil.
A exposição retrospectiva reúne ainda trabalhos produzidos no início da trajetória da artista. Entre eles está Apenas meio quadro (Only Half the Picture), série realizada entre 2002 e 2006 que registra pessoas vítimas de violência de gênero e racial, incluindo agressões e os chamados “estupros corretivos”. Nessas fotografias, Muholi aborda os retratados com sensibilidade e respeito, revelando marcas e cicatrizes sem expor suas identidades. Outro trabalho desse período é Ser (Being), que retrata casais de mulheres negras lésbicas sul-africanas em ambientes privados, registrando momentos de convivência, afeto e intimidade. “Quero projetar publicamente, sem vergonha, que somos indivíduos ousados, negros, belos e orgulhosos”, destaca Muholi sobre a exposição.