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Pororoca – A Amazônia no MAR

A contínua revisão historiográfica e geopolítica da arte é uma prioridade do MAR, nos campos da pesquisa, formação de acervo e programa de exposições. Além da apresentação pública do inigualável núcleo amazônico de nossa coleção, Pororoca – A Amazônia no MAR é um convite ao debate sobre as (in)visibilidades históricas, sociais, políticas e estéticas do outrora denominado inferno verde, nas palavras de Euclides da Cunha.

Pororoca, palavra tupi para designar estrondo, é o fenômeno de encontro entre águas de rios muito volumosos com águas de mar. De força peculiar, as pororocas sonoramente anunciam sua chegada e espacialmente deixam rastros por onde passam: seus vestígios tornam o acontecimento visível mesmo dias depois de sua ocorrência. Presente na foz do Rio Amazonas e em diversos de seus afluentes, o fenômeno marca a dinâmica da natureza e da cultura amazônicas e se revela como poderosa imagem para pensar essa região, razão pela qual este museu toma a pororoca como metáfora para a formação do núcleo significativo da Coleção MAR dedicado à produção amazônica. É no ruidoso ou silente caudal amazônico da linguagem, como descreveu o poeta Blaise Cendrars, que se dá o intenso encontro e o estrondo visual de Pororoca.

Pororoca – A Amazônia no MAR não se organiza como percurso cronológico ou temático através da região amazônica brasileira, mas propõe esse debate ao tomar como protagonistas obras de artistas contemporâneos que vivem ou atuam no local, com pontuais contribuições de documentos, artefatos culturais e iconografias de outros momentos históricos. A opção pela voz da arte ecoa as singularidades do núcleo amazônico da Coleção MAR, que desobedece ao gosto e à economia burguesas ao provocar contaminações e conflitos pouco ordinários. É o caso de práticas relacionais, das relações entre cosmologia ameríndia, videoarte e fotografia. A força dessa produção apaga a noção polarizada entre centro e periferia porque opera com força estética e ética num circuito próprio, constituindo modos particulares de circulação da arte e operando em campos onde até mesmo a noção de “arte” não existe, pelo menos no modo em que é comumente tratada no Ocidente.

Na intenção de reverberar as vozes e as sensibilidades desses artistas, esta exposição toma as vibrações – sonoras, ao passo que estéticas e políticas – das obras como modo de articulação curatorial. De um lado, temos uma eloquente vocalização de questões sociais que urgem por escuta. De outro, uma possível verborragia iconográfica ou falação exótica macunaímica dá lugar a uma tensão silenciosa da linguagem, complexidade que encara o inefável como primeira e última fronteira para a arte. São vozes que convivem com a vontade de silêncio e uma fonética articulatória de uma linguagem que necessita ser politicamente comunicada.

Paulo Herkenhoff, curador

A exposição é um convite ao debate sobre as (in)visibilidades históricas, sociais, políticas e estéticas do outrora denominado inferno verde, nas palavras de Euclides da Cunha